sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quero me Casar

Quero me Casar
Quero me casar 
na noite na rua 
no mar ou no céu 
quero me casar. 

Procuro uma noiva 
loura morena 
preta ou azul 
uma noiva verde 
uma noiva no ar 
como um passarinho. 

Depressa, que o amor 
não pode esperar! 

Autor: Carlos Drummond de Andrade


O Amor e o Outro

Não amo melhor,
nem pior do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. 
Nem sempre de mim dependem, 
confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

Autor: Affonso Romano de Sant’Anna 


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Se sensualiza...

Há esse encanto
que num dia me encantei
e foi no momento exato
mais que expressivo...
E olhei você nos braços da noite
no teu riso...
Algo em ti me impressionou
nem sei... 
Quem sabe o brilho de teus olhos
quando sorrir, sendo pra mim apenas você,
e tão você no pano vermelho
que expressiva se faz ver,
sem jeito, bela e submissa
no teu calor...
e de lado sensualiza, felina
com seus longos cabelos
e quase sem nada... 
Está linda...
Cheia de amor...
© Direitos reservados
conforme artigo (Lei 9610/98)


DEIXA QUE SE ALASTREM

Abre os portões...
Permite que flores se alastrem...
Nem tudo pode ser defesa e campo minado.
Tu te preparas para o tornado, 
mas é Zéfiro quem se aproxima.
Olhas por cima do muro, de armas engatilhadas...
Sem as lentes, que dizem tudo, 
o que os olhos, de fato, veem?
Tira as lentes dos pretos e prateados.
Vê, no brilho dos metais, as cores; 
na ameaça das armas, as flores
e as sementes de Zéfiro: 
o ambiente propício à harmonia e ao amor.
Elas vem apaziguar a criança que, 
outrora atacada por todos, 
encolhe-se atrás das trincheiras
preserva-se das besteiras do hoje, 
temendo as baixas das guerras do ontem.
O tornado é passado. 
Planta os pés no presente.
Deixa o tempo passar...
Eles estão surdos. Não escutam os teus gritos.
Eles não atacam. Abaixa, tu, os escudos.
Aposenta as armas...
É preferível investir em calhas.
Cuida dos telhados, sem confusão.
Às vezes, gotas de água soam como granizos...
Espera a chuva passar. Espera de guarda-chuva.
Estrondos de raios nas nuvens parecem bombas, 
mas não é guerra. Acalenta a criança.
Espera o sol...
Espera o sol...
O sol acima das nuvens guarda a tua luz.
Nem tudo precisa ser tormento e cruz.
Acalenta a criança. Aposenta as armas.
Tira as lentes escuras e metalizadas.
Deixa a luz ofuscar os teus olhos sombreados 
de guerras e tornados de tempos passados.
O medo nos faz cerrar a alma, eu entendo.
Erga as persianas...
Deixa que as janelas conduzam as brisas e as sementes 
para a alma, através da mente, 
para, na alma...
... quem sabe?
© Direitos reservados
conforme artigo (Lei 9610/98)
Ilustração: Arilton Flores